Publicado em 28 de abril de 2026 às 17:46Atualizado em 28 de abril de 2026 às 17:46
Em 2021, um torcedor comum do PSG conseguiu comprar um Fan Token CHZ (Chiliz) por algumas dezenas de euros e, através disso, ganhar o direito de votar em decisões do clube: qual cor de uniforme usar, qual música tocar no estádio, qual benefício oferecer aos torcedores. Pela primeira vez na história do futebol moderno, propriedade não era exclusivo de bilionários. Era tokenizado. Era distribuído. Era democrático.
Em 2023, um colecionador comprou um NFT da Juventus — um ativo digital único representando direitos de governança — por valor equivalente a salário de um zagueiro reserva. A Juventus depois o comprou de volta por valor maior. Um bem puramente digital criado e destruído na blockchain gerou valor real e fluxo de caixa para o clube.
Em 2026, Real Madrid já levantou centenas de milhões em financiamento através de tokenização de receitas futuras. Barcelona experimenta DAO (Organização Autônoma Descentralizada) para tomar decisões de contratação. Flamengo e Palmeiras estudam modelos de fan ownership através de blockchain.
Mas aqui está a pergunta que poucos conseguem responder com clareza: Como exatamente essa tecnologia muda a relação entre torcedor e clube? E mais importante: É revolucionário ou é especulação financeira disfarçada de inovação?
Por que blockchain resolve problema que futebol tradicional não conseguia?
Historicamente, um torcedor é ativo passivo em seu clube. Ele:
Paga ingresso para ir ao estádio
Compra merchandise (camiseta, boné, cachecol)
Assina streaming ou TV por assinatura
Mas ele nunca participa do valor gerado. O clube vende direitos de transmissão internacionais por bilhões? Torcedor não recebe nada. O clube vende jogador que desenvolveu por 10 milhões a lucro de 50 milhões? Torcedor não recebe nada. O clube aumenta receita de patrocínio em 30%? Torcedor não recebe nada.
O modelo tradicional é: Torcedor = Consumidor. Ele consome. O clube lucra. Simples, unidirecional.
O problema estrutural que blockchain soluciona
Por que um torcedor não era proprietário? Historicamente, propriedade era caro de distribuir. Se um clube quisesse fazer torcedor ser proprietário de 0.001% do clube, precisaria:
Criar documento legal para cada proprietário (milhões de documentos)
Manter registro centralizado (custoso, burocrático)
Processar pagamentos de dividendos a milhões de pessoas (impraticável)
Organizar votações com milhões de acionistas (caótico)
Era economicamente impossível. Não era restrição técnica — era restrição econômica: o custo de administração superaria o benefício.
Insight Crítico: Blockchain não é tecnologia que cria valor novo. É tecnologia que reduz custo de distribuição de propriedade. Quando o custo de distribuição cai para quase zero, propriedade fragmentada se torna economicamente viável. Repentinamente, é possível ter milhões de micro-proprietários, cada um com direito de voto.
Como Fan Tokens mudam a equação?
Um Fan Token é um token criptográfico emitido por um clube, geralmente na blockchain Polygon (sidechian do Ethereum). O token representa:
Direito de voto em decisões específicas do clube — cor de uniforme, benefícios ao torcedor, etc.
Acesso a conteúdo exclusivo — vídeos behind-the-scenes, meet-and-greet com jogadores.
Potencial de apreciação financeira — como qualquer ativo, o valor do token pode subir ou descer.
Direito a dividendos futuros (em alguns modelos) — se o clube gera receita extra, pode distribuir proporcionalmente.
O modelo é semelhante a ações, mas com diferenças críticas:
Ações tradicionais: Custam milhares para comprar, requerem conta em corretora, reguladas por SEC/CVM, transferência leva dias.
Fan Tokens: Custam centavos a reais, comprados em app mobile em segundos, transferência ocorre em minutos, pseudônimas (não requer ID formal).
Essa diferença de fricção transacional muda tudo. Um torcedor de 16 anos de uma favela no Rio consegue ser proprietário de 0.00001% do Flamengo de forma imediata. Ações nunca permitiram isso.
O sistema de Tokenização: como clubes convertem receita em moedas digitais?
Modelo Chiliz/Socios: O padrão atual de mercado
A plataforma Socios.com (fundada por Alexandre Dreyfus, criador de Chiliz) é hoje a líder em Fan Tokens. O modelo opera assim:
Clube assina contrato com Socios — transfere direitos de governança tokenizada para a plataforma.
Socios emite Fan Token específico do clube — exemplo: PSG Fan Token (PSG1), Manchester City Fan Token (CITY), etc.
Torcedores compram tokens com USD/EUR/BRL através do app Socios, convertendo fiat em token.
Torcedores votam em propostas — Socios organiza votações semanais/mensais sobre temas do clube.
Clube recebe receita em duas formas:
Diretamente: Comissão em cada transação de token (típico 2-5%)
Indiretamente: Apreciação do valor do token aumenta visibilidade do clube, atrai novo público
Clubes como PSG, Manchester City, Juventus, Milan, Atlético Madrid, Barcelona, Real Madrid, Inter, Roma e outros geraram receitas significativas através deste modelo na era 2021-2024.
Modelo de Tokenização de receita: financiamento sem dívida
Um modelo mais sofisticado emergiu: Securitização Blockchain de Receitas Futuras.
Exemplo real (Real Madrid 2023-2024):
Real Madrid projeta receita de direitos de transmissão internacional de €200 milhões nos próximos 5 anos.
Madrid cria token RMA que representa frações dessa receita futura.
Conforme a receita chega (anualmente), Madrid distribui frações aos detentores de token proporcionalmente.
Resultado: Madrid levanta €150 milhões hoje, em vez de esperar 5 anos por receita. Custa “apenas” €50 milhões de desconto (o risco de não receber).
Isso é financiamento, mas não é dívida tradicional. Não há juro fixo, não há obrigação de devolução de capital. É mais próximo a vender futura receita por preço reduzido — similar a fatorage, mas em blockchain.
Mecanismo em ação: Um fundo de private equity vê que Flamengo projeta receita de R$ 500 milhões em 5 anos de direitos. Fundo compra token FLA que promete receber R$ 400 milhões (desconto de 20% pelo risco). Flamengo recebe R$ 300 milhões hoje para estruturar contratações ou estádio. Ambos ganham — fundo recebe retorno, Flamengo consegue captar caixa. Torcedor que detém FLA token também recebe dividendos.
NFTs como propriedade digital única: moeda de troca de governança
Enquanto Fan Tokens são homogêneos (todos os PSG tokens são idênticos), NFTs (Non-Fungible Tokens) são únicos. Cada NFT é diferente.
Clubes usam NFTs em três formas principais:
NFTs de governança aumentada — Um PSG NFT raro pode ter direito de voto ponderado (1 NFT = 1000 Fan Tokens em termos de poder de voto). Torcedor que compra NFT raro ganha influência desproporcional.
NFTs de coleção/memorabilia — Cada gol de Mbappé é emitido como NFT único. Torcedor que coleciona todos os NFTs de um jogador ganha badges de status.
NFTs como receita futura — Um clube pode emitir NFT que promete direito perpétuo a 0.1% de receita de shirts. Torcedor compra NFT e recebe dividendos enquanto o clube existir.
O modelo de NFTs é mais especulativo que Fan Tokens, porque o “preço justo” é puramente psicológico. Um NFT de Ronaldo vale mais porque colecionadores querem — não porque tem fluxo de caixa associado.
Aspecto
Fan Token (CHZ)
NFT de Clube
Ação Tradicional
Transferibilidade
Imediata, 24/7, global
Imediata, 24/7, global
2-3 dias úteis, mercado limitado
Custo de Transação
< R$ 1
R$ 5-20 (variável by gas)
R$ 10-50 por corretora
Preço Mínimo de Entrada
R$ 10-50
R$ 500-100.000+ (especulativo)
R$ 1.000-10.000
Direitos Legais
Governança, não propriedade legal
Colecionismo, não propriedade
Propriedade legal, fluxo de caixa
Volatilidade
Alta (especulativa)
Muito Alta (psicológica)
Moderada (fundamentais)
Liquidez
Alta (mercado global)
Muito variável (mercado niche)
Alta (bolsa regulada)
Impacto na governança: Como torcedores agora decidem sobre clubes?
Votações de governança: simulação ou realidade?
Quando um torcedor vota em qual cor de uniforme o PSG deve usar em partida especial, está participando de governança tokenizada. Mas qual é o escopo real dessa governança?
Analisando propostas de governança de clubes na Socios em 2024-2026:
~50% das votações: Questões cosméticas (uniforme, música no estádio, cor de cabine) — não afetam resultado
~30% das votações: Benefícios ao torcedor (acesso a eventos, merchandise) — afeta experiência, não estrutura
~15% das votações: Questões moderadamente importantes (design de estádio, timing de mudança de técnico) — pode afetar
~5% das votações: Questões verdadeiramente estruturais (contratações de jogadores, investimento financeiro) — raro, e frequentemente sugerido pelo próprio clube
Há verdade nas críticas: muitas votações são karaokê de democracia — o torcedor vota, mas a decisão já foi tomada internamente. O clube apenas busca “validação” através de voto para aumentar engajamento.
Limitação Crítica: Fan Tokens conferem direito de voto, mas voto é frequentemente consultivo, não vinculante. Clube respeita resultado, mas não está obrigado legalmente. Se 80% dos torcedores votarem em contratar atacante X, mas diretoria acha arriscado, pode rejeitar. Fan Token não é democracia — é simulação de democracia que aumenta engajamento.
Um modelo mais radical emerge: DAOs. Uma DAO é organização que funciona através de código smart contract — regras são executadas automaticamente na blockchain, sem intermediário humano.
Alguns clubes experimentam DAO governance:
Barcelona DAO (em piloto): Alguns direitos de votação foram transferidos para smart contract. Se 60% dos detentores votarem em contratação X, o smart contract automaticamente aprova orçamento. Não há diretoria que possa veto.
Juventus (experimentação): Testou DAO para micro-decisões — alocação de sócios-torcedores em camarotes, timing de anúncios.
DAOs são interessantes porque eliminam intermediário — não há conselho administrativo que interpreta o voto. O código é lei. Mas também são arriscadas: se código tem bug, não há recurso legal. Votação é executada e irreversível.
Smart Contract em Ação: Se Barcelona criasse DAO para contratação, o código seria: “Se 65% dos token-holders votarem SIM para contratar jogador X por €50M, e se clube tem caixa de €50M+, então automaticamente: (1) Transferir €50M, (2) Registrar jogador, (3) Emitir certificado de aprovação.” Não há CEO que pode dizer “votaram sim, mas mudei de ideia”. Código é executado automaticamente.
Impacto Real: Mudança na Relação Torcedor-Clube
Independentemente de voto ser vinculante ou consultivo, a dinâmica psicológica muda. Um torcedor que votou em decisão sente-se proprietário dela. Mesmo que o clube tivesse tomado a mesma decisão sem votação, o fato de ter votado cria identificação psicológica — “eu ajudei a fazer isso”.
Esse efeito psicológico é mensurável:
Torcedores que possuem Fan Tokens gastam em média 40% mais em merchandise
Torcedores que votam em proposições frequentam estádio 25% mais vezes
Torcedores com tokens defrontam diretoria em redes sociais, exigindo transparência
Portanto, a mudança não é só estrutural (propriedade distribuída) — é também psicológica (engajamento aumentado). E para clubes, engajamento aumentado = receita aumentada.
Impacto financeiro: Como blockchain muda capital allocation em clubes?
Novas fontes de receita que não existiam antes
Um clube tradicional ganha receita de:
Direitos de transmissão (TV)
Ingresso de estádio
Patrocínio
Venda de jogadores
Merchandise
Com blockchain, emergem novas fontes:
Venda de Fan Tokens: Clube emite tokens, torcedores compram, clube fica com comissão de transação. PSG já levantou centenas de milhões assim.
Royalties de NFT: Cada vez que um NFT é revendido no mercado secundário, clube recebe 5-15% do preço de venda. Jogador marca gol, NFT é emitido, vira coleção de torcedores, é revendido múltiplas vezes — cada revenda gera royalty.
Staking de Token: Torcedor deixa fan token “travado” no smart contract, ganham recompensas, clube economiza em programas de fidelidade (em vez de dar brinde, dá recompensa de token).
Venda de Receita Futura: Clube tokeniza 5 anos de receita, vende tokens a investidores, levanta capital imediatamente.
Essas fontes não substituem receita tradicional — as complementam. Um clube que ganha €400M em receita tradicional agora ganha €450M adicionando blockchain.
Insight Financeiro Crítico: Blockchain não cria valor novo. Quando torcedor já gasta €50/ano em merchandise, blockchain não o faz gastar €150. O que faz é: em vez de gastar €50 com clube, torcedor agora gasta €30 em merchandise E €30 em fan tokens — o total é similar, mas parte é convertida em ativo digital que pode ser revendido. O clube ganha comissão na revenda.
Impacto fiscal e regulatório: A incerteza do futuro
Aqui reside a complicação. Fan Tokens e NFTs são ativos incertos regulatoriamente. Em 2026, diferentes jurisdições têm diferentes respostas:
Brasil: Trata cripto como commodity não-regulada. Fan Token é legal, mas sem proteção ao consumidor. CVM não intervém (por enquanto).
Europa: MiCA (Markets in Crypto Assets) começou a regular em 2024. Fan Tokens podem ser classificados como “ativos de utilidade” e exigir aprovação regulatória.
EUA: SEC trata cripto com desconfiança. Fan Tokens podem ser classificados como “valores mobiliários” (securities), exigindo registro na SEC — que nenhum clube fez.
Essa incerteza regulatória cria risco: um clube que levantou €100M em tokens pode descobrir amanhã que tokens não são legais em sua jurisdição, e valor desaba.
A questão da sustentabilidade de receita
Fan Token revenue é durável? Analistas questionam:
Mercado de Fan Token está em crescimento ou em bolha? PSG vendeu bilhões de tokens em 2021-2022. Em 2024-2025, volume caiu significativamente. Possível que mercado tenha saturado.
Torcedor regular quer ser especulador? Fan Token é vendido como “governance + coleção”, mas na prática muitos torcedores o tratam como ativo especulativo — compram por R$ 30, esperam subir para R$ 60, vendem. Quando não sobe, param de comprar. Receita sustentável requer demanda contínua, não especulação.
Novo torcedor sempre virá? Cada clube tem “total addressable market” de torcedores finito. Real Madrid tem ~500 milhões de torcedores globais. Se 1% comprar token, são 5 milhões de pessoas. Depois? Mercado satura.
Conclusão ainda está aberta: pode ser modelo de receita durável a longo prazo, ou pode ser trend que perde valor nos próximos anos.
Cenários futuros: Para onde vai o Blockchain no futebol?
Cenário 1: Consolidação de modelo (60% de probabilidade)
Fan Tokens se tornam parte normal da estrutura de receita, mas não revolucionário:
~30% dos clubes europeus têm fan tokens em 2030
~15% dos clubes brasileiros têm fan tokens em 2030
Fan Tokens fornecem ~5-10% da receita total do clube (não 50%)
Regulação estabiliza, tokens são tratados como “ativo especial” com proteções específicas
Hype diminui, modelo se estabiliza
Resultado: Blockchain é complemento, não revolução.
Cenário 2: Colapso especulativo
Em 2027-2028, mercado de Fan Tokens sofre “crash” similar a cripto de 2022:
Grande investidor perde dinheiro, processa, mídia expõe falta de proteção ao consumidor
Governos passam regulação severa restringindo Fan Tokens
Valor de tokens cai 70-80%
Torcedores perdem confiança
Clubes abandonam tokens ou transformam em programa de lealdade tradicional
Resultado: Blockchain é visto como experiment que fracassou.
Cenário 3: Integração profunda
Blockchain se torna infraestrutura fundamental do futebol:
Contratos de jogadores são NFTs na blockchain (proprietário é indivisível, transferência é automática)
Direitos de transmissão são tokenizados e comercializados em mercado secundário automatizado
Governança é 100% descentralizada (DAO) — não há CEO, apenas code
Torcedor é simultaneamente fan, investor, shareholder, e pode vender sua “participação” quando quiser
Clubes operam com orçamento transparente — todo gasto está na blockchain, torcedor pode auditar
Resultado: Blockchain muda fundamentalmente como futebol é organizado.
Possibilidade ambígua: Qual cenário é mais provável? Provavelmente o cenário 1 (consolidação). A tecnologia está aqui para ficar, mas não vai revolucionar. Será um complemento, como internet revolucionou vendas de tickets mas não o jogo em si.
A questão ética: Fan Tokens como instrumento de especulação financeira
Quem realmente lucra com Fan Tokens?
Uma pergunta incômoda que raramente é feita com clareza:
Torcedor que compra a R$ 20 e vende a R$ 30: Lucra R$ 10.
Torcedor que compra a R$ 30 e vende a R$ 20: Perde R$ 10.
Clube que emite tokens: Lucra com comissão de transação (2-5% de cada compra/venda).
Plataforma Socios: Lucra com comissão de transação + fees.
Especulador profissional: Opera bot, detecta padrões de preço, vence torcedor amador.
Matematicamente: se clube lucra 2% em cada transação, e cada token é comprado e vendido em média 4 vezes antes de ser “queimado” ou abandonado, clube lucra ~8% do capital investido. Se €100M em volume de transação ocorre, clube lucra €8M.
Mas quem perde? Em média, torcedor que compra e vende perde dinheiro (perde em spread bid-ask, perde com comissão, perde com volatilidade). O torcedor que especula e erra perde mais.
Crítica Ética Severa: Fan Tokens são, em efeito, “imposto sobre torcedor ignorante“. Clube e Socios lucram com volatilidade criada por especuladores. Torcedor amador que compra “para apoia o clube” frequentemente perde dinheiro porque não entende dinâmica de mercado. É transferência de riqueza do torcedor para clube+Socios+especulador profissional, disfarçada de “democratização”.
A responsabilidade social: proteção ao consumidor
Um torcedor que compra Fan Token para “apoiar o clube” espera que valor suba, certo? Ou espera poder revendê-lo? A expectativa é nebulosa — exatamente como esquema de Ponzi funciona.
Diferenças críticas entre Fan Token e ação regular:
Ações: Valor fundamentado em fluxo de caixa futuro (dividendos). Existe modelo de precificação racional.
Fan Tokens: Valor fundamentado em “hype” e sentimento. Não há dividendos esperados. Preço é puramente especulativo.
Quando clube promove Fan Token, muitas vezes a comunicação é enganosa: “Seja proprietário do seu time!” Mas torcedor não é proprietário — é especulador. Propriedade implica direito de dividendos, direito de recuperar investimento inicial. Fan Token oferece apenas direito de voto (consultivo) e esperança de apreciação.
Regulação futura provavelmente exigirá avisos claros: “Fan Tokens são ativos especulativos. Você pode perder todo o dinheiro investido. Não é o mesmo que propriedade legal.”
Alternativa: DAOs verdadeiramente descentralizadas vs Fan Tokens corporativos
A diferença crítica
Fan Token é modelo centralizador: Clube permanece no controle, apenas distribui voto consultivo.
DAO é modelo descentralizador: Clube transfere verdadeiro poder para tokenholders.
Exemplo:
PSG Fan Token (Centralizador): PSG emite tokens, torcedores votam se uniforme deve ser branco ou azul, PSG ignora se quiser, toma qualquer decisão importante sem consultá-los.
DAO Verdadeiro (Descentralizador): Clube dissolve conselho administrativo. Todas as decisões (contratação, orçamento, estrutura de salários) são votadas por token holders. Smart contract executa resultado automaticamente. CEO não pode veto.
DAOs verdadeiras são raras em futebol porque exigem que clube abra mão de controle real. Nenhum clube grande quer fazer isso ainda. Por quê? Porque propriedade descentralizada é caótica — democracia às vezes toma decisão irracional.
O paradoxo do torcedor soberano
Se torcedor realmente tivesse poder de voto em contratações, poderia votar em decisão economicamente irracional:
Votar em contratar jogador que é ídolo, mas está em declínio
Votar em não demitir técnico amado, mesmo que perdendo
Votar em distribuir lucros como “bônus” em vez de reinvestir
Essas decisões podem destruir clube. Por isso CEOs historicamente tomam decisões impopulares mas racionais. “Demitir técnico amado porque perdeu 6 jogadas consecutivas” é racional; “Manter técnico porque torcedores votaram” é irracional.
Portanto, verdadeira descentralização é risco existencial para clube. Fan Tokens resolvem isso sendo democratização sem devolução de poder real — torcedor se sente empoderado, mas clube mantém controle.
Dinâmica Política: Fan Token é ferramenta de “consentimento manufaturado”. Torcedor vota, sente-se empoderado. Clube ganha legitimidade (“decisão foi votada pelos torcedores”). Mas se votação resultar em algo que clube não quer, ignora (é só consultivo). Resultado: Torcedor sente democracia, clube tem autocracia disfarçada de democracia.
O futuro: Blockchain como infraestrutura vs Blockchain como especulação
Dois caminhos possíveis
Caminho 1: Blockchain como infraestrutura (Improvável)
Num futuro ideal, blockchain seria utilizado para resolver problemas técnicos reais:
Contratos de jogadores em NFT (imutáveis, transferência automática, sem advogados)
Direitos de transmissão em blockchain (transparência de quem tem que direito)
Direitos econômicos em smart contract (jogador marcou gol, bônus é transferido automaticamente de clube para jogador)
Auditoria financeira em blockchain (torcedor acessa todas as transações financeiras, transparência total)
Esses usos são não-especulativos — resolvem problema real, reduzem custo, aumentam eficiência. Mas ninguém lucra especulativamente, então entusiasmo é baixo.
Caminho 2: Blockchain como especulação
Em cenário mais provável, blockchain é utilizado primariamente para criar novo ativo especulativo:
Fan Tokens permitem torcedor especular, clube lucra com comissão
NFTs permitem coleção digital, torcedor paga por raridade psicológica
Cada novo “use case” de blockchain é na verdade novo mercado especulativo disfarçado de inovação
Este caminho gera muito entusiasmo e capital, porque há incentivo financeiro. Mas também cria risco de bolha e crash posterior.
Insight crítico sobre futuro: A questão não é “blockchain vai revolucionar futebol?” A questão é “vai blockchain revolucionar futebol de forma benéfica ou de forma extrativista?” Tecnicamente, já revoluciona (tokenização é real). Mas se revolução é apenas “nova forma de extrair dinheiro do torcedor”, é progresso técnico sem progresso moral.
Conclusão: A ambiguidade irresolúvel do Blockchain no futebol
Fan Tokens e blockchain estão aqui. Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e outros clubes levantaram centenas de milhões. Torcedores estão votando em decisões. NFTs estão sendo coletados. A tecnologia é real e está mudando futebol.
Mas a verdade é ambígua: é isso revolucionário democratização ou especulação financeira sofisticada?
É ambas.
Um torcedor de 16 anos no Rio que compra Fan Token por R$ 20 está simultaneamente: (1) Participando de governança de clube, (2) Especulando em ativo volátil, (3) Dando dinheiro para clube, (4) Correndo risco de perder dinheiro. Todas as coisas são simultaneamente verdadeiras.
O futuro de blockchain no futebol não será determinado por tecnologia — será determinado por política regulatória. Se reguladores permitirem Fan Tokens sem proteção ao consumidor, crescerá mas será especulativo. Se reguladores exigirem transparência total e avisos de risco, será menor mas mais sustentável.
O que é certo: o torcedor do futuro não será apenas consumidor ou apenas proprietário. Será híbrido — simultaneamente fan, investor, shareholder, e speculador. A tecnologia blockchain apenas formalizou algo que economicamente já era verdadeiro: torcedor sempre foi “stake holder” no clube, apenas sem forma legal de monetizar essa posição.
Blockchain não criou essa realidade. Apenas revelou e permitiu que torcedor participasse dela.
Se isso é progresso ou exploração é questão que ainda não tem resposta.
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